Em relatório nacional, professora da Unifesp analisa como currículo, expectativas profissionais e perda de autonomia escolar ajudam a reproduzir desigualdades
Em relatório nacional, professora da Unifesp analisa como currículo, expectativas profissionais e perda de autonomia escolar ajudam a reproduzir desigualdades

Um cartaz oferecendo vagas em supermercados para rapazes pode parecer comum em uma escola pública de ensino médio da periferia. Seria muito menos provável encontrá-lo em uma escola privada frequentada por estudantes de alta renda. A diferença ajuda a revelar uma dimensão da desigualdade educacional que não aparece apenas nos números de matrículas: as escolas também oferecem expectativas de formação e horizontes profissionais distintos conforme a renda, a raça, o gênero e o território de seus estudantes.
A cena é apresentada pela professora Marian Ávila de Lima e Dias, professora do Departamento de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) - Campus Guarulhos, no texto “A educação e a reprodução da desigualdade”, publicado na quarta edição do Relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades. Produzido pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), no âmbito do Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades, o documento acompanha áreas como renda, trabalho, educação, saúde, segurança alimentar, segurança pública, representação política, meio ambiente, serviços básicos e desigualdades urbanas.
Dos 48 indicadores analisados na edição de 2026, 34 apresentaram melhora, oito pioraram e seis permaneceram estáveis. O panorama registra avanços recentes, mas também mostra a permanência de disparidades históricas entre regiões e grupos sociais.
Marian observou a educação a partir de dois prismas: o primeiro envolve o acesso à escolarização e as condições que permitem aos estudantes permanecer e concluir seus percursos; o segundo diz respeito às expectativas sobre a formação oferecida: o que se ensina, como se ensina e quais conhecimentos são considerados necessários para que alguém seja reconhecido como “bem formado”.
Essas expectativas não são iguais para todos. Em escolas frequentadas pelas camadas mais pobres, a formação pode ser reduzida à preparação imediata para postos de trabalho precários e de menor remuneração. Para estudantes de famílias de maior renda, permanecem mais presentes as expectativas de acesso à cultura, ao conhecimento científico, à participação social e à construção da cidadania.
A pesquisadora questiona ainda a ideia, disseminada nas últimas décadas, de que a educação seria principalmente um caminho individual para alcançar empregos mais bem remunerados. Essa promessa, segundo a análise, encobre as diferenças entre as formações oferecidas e as condições concretas do mercado de trabalho. Também desloca para cada estudante a responsabilidade por seu futuro, mesmo quando as oportunidades são distribuídas de maneira profundamente desigual.
Por isso, o centro da discussão está nas disputas em torno do currículo, dos planos de ensino e das avaliações. A definição centralizada em conteúdos e metas, associada à perda de autonomia das instituições e de seus profissionais, pode limitar o que a escola oferece para além das competências imediatamente cobradas. “Quando a escola perde autonomia sobre o ensinar e o aprender, aumenta o risco de empobrecimento da variedade e da qualidade da formação”, declara.
A relação entre educação e trabalho começa antes mesmo do ensino fundamental. O relatório mostra que, em 2025, apenas 36,6% das crianças de até três anos frequentavam creches. O percentual variava de 18,8% na Região Norte a 45,4% na Região Sul, ainda distante da meta de 50% estabelecida pelo Plano Nacional de Educação para o período de 2014 a 2024.
Para a pesquisadora, a falta de vagas não afeta somente o início da trajetória escolar. A creche possibilita que crianças pequenas se familiarizem com os códigos culturais da escola e pode favorecer a continuidade do percurso educacional. Ao mesmo tempo, a regularidade do atendimento permite que mães, pais e outros responsáveis exerçam atividades remuneradas, com efeitos sobre a renda e a organização familiar.
A alfabetização mostra como as desigualdades acumuladas desde os primeiros anos podem atravessar toda a trajetória educacional. A falta de acesso à educação infantil reduz as oportunidades de familiarização das crianças com a cultura escolar, enquanto dificuldades não enfrentadas no início do ensino fundamental podem comprometer a permanência e a aprendizagem nas etapas seguintes, com consequências que chegam à vida adulta.
Nesse contexto, a Educação de Jovens e Adultos (EJA) aparece como uma política contraditória. Ao mesmo tempo que permite a retomada dos estudos e combate o analfabetismo, sua existência revela que uma parcela da população não teve o direito à educação assegurado no período regular. Marcada muitas vezes pela descontinuidade, pelo improviso e por uma formação acelerada, a EJA tende a assumir caráter compensatório. Entre seu público estão mulheres mais velhas que interromperam a escolarização para trabalhar ou assumir os cuidados domésticos e somente décadas depois conseguiram retornar à sala de aula, geralmente no período noturno.
No ensino superior, a expansão das vagas tampouco assegura percursos equivalentes. O texto destaca que grande parte desse crescimento ocorreu no setor privado, formado por instituições com condições muito diferentes de infraestrutura, pesquisa, extensão, produção de conhecimento e reconhecimento dos diplomas. Assim, cursos formalmente semelhantes podem oferecer experiências educacionais e oportunidades profissionais bastante distintas.
A análise também alcança a educação especial. O aumento superior a 20% nas matrículas de estudantes com deficiência, transtorno do espectro autista e altas habilidades em classes comuns, registrado pelo Censo Escolar de 2025, representa um avanço. Entretanto, a expansão não foi acompanhada, na mesma proporção, pelas condições pedagógicas, institucionais e de atendimento necessárias. Para a pesquisadora, uma escola inclusiva não pode tratar a diferença como um problema individual a ser encaminhado exclusivamente a serviços especializados. “Recursos técnicos e atendimentos específicos são necessários, mas devem estar articulados ao projeto pedagógico e à sala de aula comum. A diversidade precisa orientar a organização da escola e as relações entre estudantes, docentes e equipes gestoras”, afirma.
Essa perspectiva também aparece nas pesquisas sobre violência escolar coordenadas pela professora no Observatório da Educação: Violência, Inclusão e Direitos Humanos da Unifesp. Os resultados contestam o estereótipo de que escolas públicas localizadas nas periferias seriam necessariamente mais violentas. Instituições com muitos e poucos episódios de agressão podem coexistir em uma mesma região.
Mais do que a localização, fatores como o clima escolar, a gestão democrática, a estabilidade das equipes e a forma como a autoridade é exercida interferem nas relações. Marian também alerta que ocorrências em escolas privadas de regiões mais ricas tendem a ser silenciadas, enquanto episódios semelhantes em escolas públicas periféricas recebem maior exposição.
A pesquisadora também adverte que expressões como “desigualdade estrutural” não podem se transformar em explicações genéricas, capazes de fazer o problema parecer inevitável. É necessário identificar os mecanismos concretos que produzem essas diferenças, entre eles a distribuição de renda, o ingresso precoce de jovens negros no mercado de trabalho, o financiamento educacional desigual, as condições de infraestrutura, a estabilidade do corpo docente e o acesso a recursos culturais dentro e fora da escola.
A escola ocupa, assim, uma posição contraditória. Pode ampliar direitos, promover o encontro entre pessoas diferentes e contribuir para a formação de cidadãos menos violentos. Mas também pode adaptar estudantes a uma sociedade marcada pela distribuição desigual de renda, conhecimento, oportunidades e condições de vida. Enfrentar essa contradição exige ir além da ampliação das matrículas e discutir qual formação está sendo oferecida, para quem e para qual projeto de sociedade.
O Relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades está em sua quarta edição. Produzido pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), no âmbito do Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades, o documento acompanha áreas como renda, trabalho, educação, saúde, segurança alimentar, segurança pública, representação política, meio ambiente, serviços básicos e desigualdades urbanas.
Dos 48 indicadores analisados na edição de 2026, 34 apresentaram melhora, oito pioraram e seis permaneceram estáveis. O panorama mostra avanços recentes, mas também revela a permanência de disparidades históricas entre regiões e grupos sociais. Como as bases utilizadas possuem diferentes periodicidades, os resultados correspondem aos anos mais recentes disponíveis para cada indicador. Acesse aqui.