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  • Por AIS Comunicação e Estratégia
  • 19/09/2026

Estudo da Unifesp usa IA para analisar 80 mil notificações de violência contra mulheres em São Paulo

Pesquisa identifica padrões temporais e territoriais, projeta tendências das notificações e apresenta metodologia para aplicação de inteligência artificial em pesquisas de saúde

Estudo da Unifesp usa IA para analisar 80 mil notificações de violência contra mulheres em São Paulo
Divulgação UNIFESP

Um estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) analisou 80.148 notificações de violência contra mulheres registradas na cidade de São Paulo entre 2013 e 2023. A pesquisa combinou análises estatísticas e geoespaciais com técnicas de inteligência artificial para identificar padrões ao longo de uma década e projetar o comportamento das notificações nos dois anos seguintes.

A análise mostra que 71,4% das notificações envolviam mulheres entre 20 e 39 anos. A violência física foi a mais registrada, presente em 79,8% das notificações, e a força corporal apareceu como meio de agressão em 73,8% dos registros. Os agressores eram homens em 72,6% dos casos notificados e, quanto ao vínculo com a vítima, os cônjuges representavam 30,2%, seguidos por desconhecidos (14,8%) e ex-cônjuges (13,3%).

“Quando analisamos mais de 80 mil notificações ao longo de dez anos, conseguimos enxergar padrões que dificilmente seriam percebidos de forma isolada”, explica um dos autores da pesquisa André Shimaoka,  do Departamento de Informática em Saúde da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp). 

Entre os tipos de violência analisados, a violência sexual apresentou a tendência de crescimento mais acentuada na série histórica. A modelagem temporal também projetou a continuidade da tendência de crescimento das notificações de violência física, psicológica e sexual nos 24 meses seguintes ao período analisado.

“A inteligência artificial nos permitiu observar como esses registros se comportam ao longo do tempo e como se distribuem pelo território”, Maria Elisabete Salvador Graziosi, pesquisadora do Departamento de Informática em Saúde da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp). 

A pesquisa identificou ainda concentrações de notificações em diferentes regiões da capital, incluindo áreas das zonas sul, leste e central. Para os pesquisadores, a análise territorial pode contribuir para orientar estratégias locais de vigilância e prevenção.

Entre os demais resultados, a violência psicológica apareceu em 26,1% das notificações e a sexual em 9,8%. Quando havia registro de uso de álcool pelo agressor, a prevalência de violência sexual foi 32% maior e a de violência física, 17% maior. Entre gestantes, a prevalência de violência sexual foi 2,47 vezes a observada entre não gestantes. Em relação à raça/cor registrada no sistema, 40,5% das notificações envolviam mulheres pardas, 40,2% brancas e 12,4% pretas.

Os autores ressaltam que os dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) representam ocorrências notificadas aos serviços de saúde e não a totalidade dos episódios de violência. Assim, o crescimento das notificações não significa, necessariamente, aumento equivalente da ocorrência de violência na população.

Metodologia para uso de IA em pesquisas de saúde

Além dos resultados sobre violência contra mulheres, uma contribuição metodológica do estudo foi a apresentação do Health Research Standard Process for Artificial Intelligence (HRSP-AI), desenvolvido pelos pesquisadores para estruturar a aplicação de inteligência artificial em pesquisas na área da saúde.

O processo organiza as diferentes etapas de utilização da IA, buscando aumentar a consistência, a transparência e a reprodutibilidade das análises realizadas com grandes volumes de dados. A proposta pode ser aplicada a outras bases de dados e a diferentes problemas e contextos de saúde pública.

A pesquisa resultou em dois artigos científicos publicados em periódicos distintos: Revista de Saúde Pública e Revista Ciência & Saúde Coletiva (https://www.scielo.br/j/csc/a/rM9rtHsDqbsndhcjMnxymJS/?lang=pt&ilang=pt_BR).

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