Estudo da Universidade Federal de São Paulo aponta que José Ferreira e Vladimir Herzog estiveram na mesma cela do DOI-Codi
Estudo da Universidade Federal de São Paulo aponta que José Ferreira e Vladimir Herzog estiveram na mesma cela do DOI-Codi

O avanço nas pesquisas do Grupo de Trabalho Interinstitucional Memorial DOI-Codi, sob coordenação da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), permitiu identificar, com base em evidências materiais, o espaço onde ocorreram mortes já reconhecidas como simuladas durante a Ditadura Militar brasileira. O estudo identificou que o tenente da Polícia Militar de São Paulo José Ferreira de Almeida e o jornalista Vladimir Herzog estiveram na mesma cela do DOI-Codi, em São Paulo, conectando os dois casos a partir de elementos físicos do ambiente e reforçando padrões de atuação do aparato repressivo.
A identificação foi possível a partir da reavaliação de laudos da época combinada com uma análise comparativa de remanescentes materiais. Os pesquisadores mapearam correspondências estruturais entre os ambientes descritos nos documentos oficiais, observando elementos como disposição de portas, grades, marcas nas paredes e características arquitetônicas do espaço. A convergência desses fatores permitiu associar ambos os casos à chamada “cela especial nº 1” e determinar sua localização no interior do prédio 2-A do conjunto do antigo DOI-Codi.
Mais do que aproximar dois episódios emblemáticos, a pesquisa oferece uma identificação concreta do ambiente onde essas mortes ocorreram. Ao integrar documentos, imagens e vestígios materiais, o estudo desloca a análise do campo exclusivamente documental para uma leitura espacial dos acontecimentos, trazendo novos elementos sobre a dinâmica da repressão dentro do DOI-Codi.
Segundo a historiadora Deborah Neves, doutora em História e pós-doutoranda na Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH/Unifesp) - Campus Guarulhos, a integração de diferentes tipos de fonte é determinante para esse tipo de reconstituição e para a preservação de lugares de memórias traumáticas.
A validação dessas informações contou também com a análise arquitetônica do edifício. A preservação de características físicas do espaço permitiu confirmar, diretamente no local, os elementos identificados nos registros históricos, consolidando a correspondência entre os laudos e o ambiente reconstruído pela pesquisa.
“A análise desses contextos exige a articulação de diferentes tipos de fonte. Quando documentos, imagens e vestígios materiais são analisados de forma integrada, é possível estabelecer relações que não aparecem em leituras isoladas dos registros”, explica Deborah Neves.
O caso determinante para essa descoberta é o de José Ferreira de Almeida, detido no contexto da perseguição do regime ao Partido Comunista Brasileiro conhecido como Operação Radar. Membro da Associação que defendia os interesses trabalhistas dos Policiais Militares, 63 PMs foram presos e levados ao Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e ao DOI-Codi. Idoso e portador de uma úlcera, tenente Almeida foi barbaramente torturado no prédio da Rua Tutoia e teve sua morte registrada como suicídio. Somente na década de 1990 a Comissão de Anistia o reconheceu como vítima do Estado e em 2013 a Comissão Estadual da Verdade recomendou a retificação da causa mortis por instâncias oficiais, o que ainda não ocorreu.
Morto aos 64 anos e reformado, atuava politicamente de forma não armada, voltada à organização e comunicação dentro do partido, buscando a melhoria das condições de trabalho e remuneração de Policiais Militares de São Paulo. Apesar de sua história ser pouco conhecida do grande público, foi por meio de elementos presentes em seu laudo de perícia que permitiu identificar a cela onde ele foi fotografado pouco mais de dois meses antes de Herzog, em postura semelhante à que o jornalista teve seu corpo posicionado.
A conexão entre os casos de Almeida e Herzog a partir do mesmo espaço amplia a compreensão sobre os mecanismos de repressão utilizados no período, ao evidenciar a recorrência de práticas dentro de um ambiente específico de detenção. Essa abordagem permite observar não apenas os episódios isoladamente, mas também os padrões estruturais em que ocorreram.
“A reconstrução desse ambiente permite compreender que não se trata apenas de casos isolados, mas de práticas que se repetem dentro de uma mesma estrutura. Quando conseguimos identificar o espaço, conseguimos também entender melhor a lógica em que essas mortes ocorreram”, afirma.
Para a pesquisadora, a leitura espacial dos acontecimentos representa um avanço metodológico na investigação histórica e em patrimônio cultural, especialmente em contextos marcados violência institucional.
O aprofundamento das análises também inclui a ampliação do escopo para outros espaços do conjunto do antigo DOI-Codi e a investigação de novos conjuntos documentais. A expectativa é que o cruzamento dessas informações permita identificar outros pontos de convergência entre casos de tortura e assassinatos pelo órgão durante a ditadura, contribuindo para uma compreensão mais detalhada das dinâmicas de repressão no período.