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  • Por AIS Comunicação e Estratégia
  • 19/09/2026

Ostras, mexilhões e mariscos revelam relação entre urbanização e microplásticos em áreas protegidas de São Paulo

Estudos reúnem três décadas de dados sobre contaminantes, analisam 28 áreas marinhas protegidas e resultados apontam prioridades para o monitoramento e a gestão do litoral paulista

Ostras, mexilhões e mariscos revelam relação entre urbanização e microplásticos em áreas protegidas de São Paulo
Divulgação UNIFESP

Ostras, mexilhões e mariscos podem ajudar a identificar como a contaminação química e por resíduos se distribui pelo litoral e chega até mesmo a áreas criadas para proteger a biodiversidade. Dois estudos desenvolvidos pelo Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (IMar/Unifesp) - Campus Baixada Santista utilizaram esses organismos para traçar um panorama de três décadas de contaminação costeira e avaliar a presença de microplásticos em uma rede de 28 áreas marinhas protegidas do litoral paulista.

Os resultados mostram que os níveis de microplásticos encontrados nessas áreas foram, de modo geral, inferiores aos registrados por pesquisas realizadas em locais sem proteção. A contaminação, entretanto, variou de acordo com o grau de modificação humana do entorno. Áreas urbanizadas e regiões próximas a rios apresentaram maior influência sobre as concentrações encontradas nos organismos.

O estudo reforça que a criação de uma área protegida, embora fundamental para a conservação da biodiversidade, não é suficiente para isolá-la de fontes externas de poluição. Resíduos transportados por rios, sistemas de drenagem, lançamento de efluentes e atividades desenvolvidas nas cidades próximas podem alcançar o ambiente marinho independentemente dos limites administrativos das unidades de conservação.

“As áreas protegidas apresentaram níveis gerais relativamente baixos, mas isso não significa ausência de contaminação. Os resultados mostram que precisamos olhar também para o que acontece no entorno dessas áreas, especialmente nas regiões mais urbanizadas e sob influência de rios”, afirma Yonara Garcia.

Microplásticos em 28 áreas protegidas

Publicado na revista Marine Pollution Bulletin, o estudo analisou organismos coletados em 30 pontos distribuídos por 28 áreas marinhas protegidas. Ao todo, foram identificadas 687 partículas de microplásticos, com concentração média de 0,70 partícula por grama de tecido úmido. Entre os locais avaliados, os valores médios variaram de 0,08 a 3,81 partículas por grama.

A maior parte das partículas tinha menos de 500 micrômetros. As fibras corresponderam a 55,3% do material encontrado e as partículas transparentes representaram 58,8%. Entre os materiais identificados estavam rayon, poliamida e poliéster, utilizados em diferentes produtos e atividades humanas.

A análise indicou uma relação importante entre a presença dos microplásticos e o grau de modificação humana das áreas estudadas. Por isso, os autores defendem que ações de monitoramento e controle da poluição sejam intensificadas principalmente em áreas urbanas e próximas a cursos d’água.

Os níveis encontrados foram considerados baixos em comparação com resultados de pesquisas realizadas em áreas não protegidas. Essa comparação, contudo, não permite concluir isoladamente que a proteção ambiental tenha causado a redução. Para os pesquisadores, a presença das partículas ainda merece atenção, tanto pelos objetivos de conservação dessas áreas quanto pela tendência de crescimento da poluição por plásticos.

Organismos que funcionam como sentinelas

Ostras, mexilhões e outros mariscos pertencem ao grupo dos bivalves, moluscos protegidos por uma concha formada por duas partes. Como se alimentam filtrando a água, esses animais podem reter partículas e substâncias presentes no ambiente.

Além disso, permanecem ligados a uma área relativamente restrita durante a maior parte da vida. Essas características permitem utilizá-los como sentinelas ambientais: ao analisar seus tecidos, os pesquisadores conseguem obter informações sobre a contaminação existente em determinado local e comparar regiões submetidas a diferentes pressões humanas.

“Esses organismos integram, ao longo do tempo, diferentes condições ambientais. Em vez de mostrar apenas o que estava presente na água no momento da coleta, eles ajudam a construir um retrato mais amplo da exposição à contaminação”, destaca Ítalo Braga Castro, professor do Instituto do Mar da Unifesp e orientador da pesquisa.

Três décadas de pesquisas no litoral paulista

O segundo artigo, publicado na revista Regional Studies in Marine Science, reuniu 30 estudos científicos sobre contaminantes encontrados em bivalves do litoral paulista. Os trabalhos foram publicados entre 2000 e 2025 e abrangem dados de monitoramento produzidos desde 1995.

A revisão examinou pesquisas sobre metais e metaloides tóxicos, hidrocarbonetos, poluentes orgânicos persistentes, microplásticos e até resíduos de substâncias psicoativas. Os metais foram o grupo mais investigado, correspondendo a 54,6% da literatura analisada e ao conjunto de dados com maior extensão temporal.

“A gestão ambiental depende de informações produzidas ao longo do tempo e com métodos que permitam comparar diferentes áreas. A combinação dos dois estudos ajuda a passar de diagnósticos isolados para uma perspectiva de monitoramento contínuo do litoral”, explica Ítalo.

Os resultados apontam para a necessidade de integrar a gestão das áreas marinhas protegidas às políticas de saneamento, controle de resíduos, planejamento urbano e conservação das bacias hidrográficas. Também indicam que o acompanhamento ambiental deve considerar as atividades e as fontes de poluição existentes ao redor delas.

Os artigos resultam da pesquisa desenvolvida por Yonara Garcia sob orientação de Ítalo Braga Castro, com a participação de Victor Vasques Ribeiro, Caio César Achiles do Prado e outros pesquisadores e instituições parceiras.

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