Pesquisa divulgada neste mês mostra que 53% dos brasileiros vivem no limite do orçamento. Jeff Patzlaff explica como identificar o desequilíbrio, reorganizar as dívidas e começar a construir uma reserva de emergência
Pesquisa divulgada neste mês mostra que 53% dos brasileiros vivem no limite do orçamento. Jeff Patzlaff explica como identificar o desequilíbrio, reorganizar as dívidas e começar a construir uma reserva de emergência

Mais da metade dos trabalhadores brasileiros termina o mês sem dinheiro, segundo pesquisa da Serasa, e 53% afirmam viver no limite do orçamento. O cenário ajuda a dimensionar uma dificuldade que deixou de ser pontual para se tornar uma realidade financeira recorrente para milhões de pessoas. A pressão também aparece nos dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC), que apontam que 82% das famílias brasileiras estão endividadas, maior patamar da série histórica, em meio ao custo de vida elevado e às taxas de juros ainda altas.
Para o planejador financeiro Jeff Patzlaff, planejador financeiro CFP®️ e especialista em investimentos, o primeiro passo para mudar esse cenário é compreender com clareza a própria situação financeira. “Para iniciar a virada desse jogo, é preciso ter clareza sobre o momento atual, saber tudo que entra (salário+extras), todos os gastos (essenciais, lazer), e só assim conseguir mudar o jogo”, afirma Jeff.
Outros dados do Banco Central mostram que quase 30% da renda das famílias está comprometida com o pagamento de dívidas. Ao mesmo tempo, a inflação acumulada reduz o poder de compra. Nesse ambiente, recursos como o cheque especial e o crédito rotativo do cartão podem passar a ser utilizados como extensão da renda, agravando o desequilíbrio financeiro.
A diferença entre orçamento apertado e desequilíbrio financeiro
Um levantamento da Serasa sobre uma década do Mapa da Inadimplência mostrou que 42% das pessoas que estão negativadas atualmente já enfrentavam a mesma restrição há dez anos. A compreensão do orçamento é, segundo Patzlaff, fundamental para identificar em que estágio está a vida financeira: “Um orçamento apertado é aquele em que a renda consegue cobrir as despesas essenciais e algum lazer, sem a contratação de novas dívidas, mas não permite formar uma reserva. Nesse caso, qualquer imprevisto pode levar ao endividamento”.
Já o desequilíbrio aparece quando as despesas passam a superar a renda, levando a pessoa a recorrer ao limite do cheque especial ou a pagar apenas o valor mínimo da fatura do cartão de crédito. “Entender o seu orçamento ajuda a sair do fundo do poço. O orçamento apertado é aquele que empata no zero a zero, a pessoa consegue pagar os gastos essenciais, como alimentação e contas básicas de consumo, ter o mínimo de lazer, não contrai novas dívidas, mas também não guarda nada, ficando totalmente exposta a qualquer imprevisto. O desequilíbrio financeiro acontece quando a conta entra no vermelho e o mês se torna maior que o salário, situação evidenciada quando o limite do cheque especial passa a ser encarado como parte da renda ou quando se começa a pagar apenas o mínimo da fatura do cartão de crédito”, diz.
A partir daí, pode se formar uma bola de neve. O descontrole financeiro nem sempre começa com uma grande despesa, mas pode surgir de uma sequência de pequenas decisões de consumo. Na vida financeira, o fenômeno pode aparecer na chamada inflação do estilo de vida. Um aumento salarial, por exemplo, pode ser acompanhado pela aquisição de um carro mais caro, que também eleva gastos com seguro, estacionamento e manutenção. Dessa forma, a renda aumenta, mas as despesas crescem junto.
“Você recebe um aumento, financia um carro melhor, que exige um seguro mais caro, lavagens premium e estacionamentos mais caros. O consumo puxa mais consumo, e a renda maior desaparece no ralo invisível das pequenas parcelas”, explica.
A chamada fadiga de decisão também pode influenciar os gastos. Segundo Jeff, a força de vontade diminui ao longo do dia, o que ajuda a explicar por que compras por impulso, como pedidos de delivery e compras online, podem ocorrer com maior frequência à noite, quando a pessoa está cansada.
“O salário não acaba porque a pessoa é irresponsável, mas porque ela sofre de fadiga de decisão. Daniel Kahneman (ganhador do prêmio nobel de economia) provou que a nossa força de vontade é como a bateria de um celular, ela acaba ao longo do dia. O cérebro cansado desliga a racionalidade e compra conforto imediato”, diz.
Como reorganizar as dívidas e recuperar o controle financeiro
Para quem já está endividado, o primeiro passo é fazer um levantamento completo das dívidas, identificando credores, valores e taxas de juros. Aplicativos gratuitos de organização financeira, como Minhas Economias, Mobills e Organizze, podem auxiliar no registro e na categorização dos gastos, permitindo visualizar para onde a renda está sendo direcionada.
“A tecnologia é a maior aliada para tirar esse peso das costas e abandonar as velhas anotações em papel que acabam esquecidas. Pode ser um baque no início, logo a ansiedade gerada pela incerteza começa a dar lugar ao controle, permitindo estancar o sangramento financeiro aos poucos”, alerta.
Na definição de prioridades, as despesas essenciais devem vir antes das demais obrigações: “É fundamental garantir as despesas essenciais que mantêm a segurança, a alimentação e a capacidade de trabalho da família, seguidas pela proteção dos bens em garantia, como o financiamento do imóvel ou do veículo. Somente depois de assegurar o básico, o foco deve se voltar com toda a força para encerrar o rotativo do cartão e o cheque especial, que são os verdadeiros destruidores de patrimônio”, argumenta o planejador financeiro.
Em um cenário onde a taxa de juros continua alta, 14% ao ano, sendo um desafio pesado, uma estratégia inteligente, de acordo com Jeff, é trocar uma dívida cara por outra mais barata. “Buscar uma linha de crédito com taxas menores, como um empréstimo consignado ou com garantia, para quitar as faturas abusivas à vista pode ser a salvação do orçamento, desde que se preste total atenção ao custo efetivo total (CET) do novo empréstimo, que mostra todas as taxas escondidas, e não apenas os juros. O mais importante é ter disciplina rigorosa de acompanhar os gastos e mudar os hábitos para não se endividar mais”, diz.
A reorganização financeira também não significa necessariamente cortar todas as despesas consideradas supérfluas: “Essa travessia exige adaptação e o controle total da sua vida financeira, não significa que você deva sair cortando tudo, tente entender o que faz sentido ou não, por exemplo faz sentido sempre pedir um delivery ou é melhor cozinhar. Ter consciência dos seus gastos faz com que você faça escolhas melhores e não desista no meio do caminho”.
Depois de quitar as dívidas, o próximo objetivo passa a ser a formação de uma reserva de emergência. A recomendação apresentada por Patzlaff é utilizar investimentos atrelados à Selic ou ao CDI e com liquidez diária, de forma que os recursos possam ser acessados em caso de imprevistos.
“O método 50/30/20 também pode ser utilizado como referência para organizar a renda, destinando 50% às despesas essenciais, 30% ao lazer e 20% aos investimentos. A divisão, no entanto, precisa ser adaptada à realidade de cada orçamento. Construa uma reserva de emergência em investimentos atrelados a Selic ou ao CDI e que tenha liquidez diária, para blindar a família contra sustos”, aconselha o especialista.